sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Centavos pro pastor e pra mim


“Está quebrado, em nome de Jesus! Orai, irmãos. Nenhuma enfermidade, nenhum mal restará em suas vidas, em suas famílias, se vocês aceitarem Jesus como único salvador”... variações sobre esse tema repetidas ad nauseam. Queria um baseado, naqueles tempos eu fumava muito. Queria também uns chopes gelados, uns beijos do Vi e carinhos na minha nuca, nada além. Não era difícil ter tudo isso, a não ser os beijos e carinhos que não viriam gratuitamente, mas somente como aquecimento pra uma boa trepada, mas não era de uma boa trepada que eu precisava e sim de um carinho de leve puro e simples. Mas nada é puro nem simples e nessa idade eu já começava a suspeitar disso. Tanto que eu estava me vendendo à palavra do Senhor, em troca das contas do mês e de mais uns trocados. Minha mãe suava, vibrava e, quem sabe, até gozava, ouvindo aquele sujeitinho nojento com seu terno caro e com seus passos galináceos, ciscando pelo púlpito e esbravejando por nossas almas e nossas notas.


Coitado do meu pai, sujeito calmo sujeitado pelo casamento. No final das contas, era da carteira dele que saia cada centavo que ia pro pastor e pra mim. O homem de Deus devia gastar em prostitutas e ternos, eu gastava em contas, comida, erva, chope e tequila. E meu pai trabalhava. Mas não quero falar do meu pai, coitado. Quero falar daquela igreja lotada, cheia de gente perdida, cheia de falácias e de esperanças infundadas. E eu cumprindo meu insignificante papel na peça, impaciente, salivando enquanto pensava no meu chope gelado e tentava ignorar os berros do pregador.

Finalmente, o fim. “Filhinha, volte pra casa, isso é uma besteira, para que quer ficar longe da gente?” (Porque não quero ser tua filha, não quero sua loucura me invadindo todos os dias, como se já não bastassem esses cultos uma vez por mês.) “Quero só construir minha própria vida, mãe. Quero ter essa responsabilidade.” Quero é andar nua pela casa, transar com o Vi, fumar meus baseados, beber minhas tequilas, mas minha mãe não entenderia isso. “Querida, toma seu dinheiro. Peguei mais cem pra você comprar umas roupas novas, essas que anda usando são horríveis”. Mais cem! Jesus salva! “Brigadinha, mãe.” E assim nos despedimos. Era nossa dose mensal de Deus, amor maternal e dinheiro. As coisas precisavam mudar. No começo, o Vi sempre trazia erva, mas agora eu é que tinha que dar a grana. Dava tudo pra ele e pouco recebia em troca. Com minha mãe, era gospel e amor de filha em troca das contas pagas e mais uns trocadinhos. Com o Vi, era algo mais nebuloso e eu sentia que cada vez mais eu levava desvantagem no negócio.

7 comentários:

Carlos Cruz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Cruz disse...

você escreve bem.

sua aversão por pastores ficou ainda mais nítida.

Aninha disse...

amiga, o Marcelo deixou as xerox aqui em casa. se quiser posso deixar na portaria do teu prédio ou então vc passa aqui em casa no domingo. vê se olha teus e-mails, já te mandei uns 20!

Aninha disse...

antes que brigue comigo, adorei teus textinhos. sabe que é minha amiga mais talentosa

;)

Djalma disse...

Texto muito bom. Prende o leitor até o final e deixa uma agradável sensação de querer mais. Agrada essa introspecção na alma do personagem narrador e essa "concupiscência" com nossos verdadeiros sentimentos.

Oportunamente, lerei mais.

Grande abraço!

Fabrício Romano disse...

Eu sinto pena dos "fiéis" que deixam esses parasitas pseudo-europeus cobrirem o espaço vazio na vida deles. Mas fazer o quê, sempre foi assim...

Anônimo disse...

...Que Deus te abençoe sempre! erva..aqui em recife na beira-mar faz bem...